Sobre política, religião e futebol

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Por admin maio 11, 2018 23:02

Sobre política, religião e futebol

Diz um ditado popular que política, religião e futebol não se discutem. Assim, no imaginário do senso comum, há a expectativa de brigas serem evitadas, mas, ao mesmo tempo, questões essenciais da nossa sociedade acabam nunca sendo devidamente debatidas como se deveria fazer numa verdadeira democracia.

Nesse cenário de disputas intensas por posições ideológicas e partidárias entre esquerdas e direitas, coxinhas e mortadelas, golpistas e petralhas ou quaisquer outras classificações superficiais extremas, vividas por parentes, amigos, colegas ou estranhos, nas mesas de jantar, botecos, locais de trabalho, templos ou redes sociais, (não) é de causar espanto que a democracia seja tão aviltada e a política demonizada nas suas representações práticas na estrutura do nosso Estado. Há uma grave crise na democracia e a descrença no nosso modelo político como melhor forma de resolver conflitos dá espaço a posições antidemocráticas como defesas de rompimento, intervenção, volta de modelos totalitários. Essas posições avançam sobre o vácuo democrático e a crise do modelo de representação política das instituições.

Entretanto, faz-se cada vez mais necessário retomar a política no seu sentido nobre como forma de amenizar as tensões sociais, as disputas ideológicas, vencer o sectarismo e voltar a fortalecer a nossa frágil democracia frente aos desafios e às demandas de nosso tempo. É essencial que as discussões relacionadas às políticas públicas interessem aos cidadãos e cidadãs da pólis moderna. Direcionar qual o rumo das cidades, dos estados, do país para além de projetos pessoais ou de pequenos grupos específicos pelo poder. Pensar, de fato, um projeto de nação mais justa e solidária, independente de posicionamentos ideológicos estritos. Radicalizar a democracia, oferecendo ao povo possibilidades efetivas de participar na formulação das políticas de educação, cultura, saúde, segurança, lazer, esporte, moradia, saneamento, meio ambiente e tantas outras áreas essenciais à vida da população. Falar sobre o racismo, machismo, lgbtfobia, intolerância religiosa ou qualquer outra prática opressora ou antidemocrática. Impossível fazer isso sem discutir uma reforma no modelo político que aproxime as pessoas comuns à formulação e execução das decisões e um projeto mínimo de nação.

Hoje, ao que parece, quem apresenta um projeto de nação mais pronto sãos religiosos que aliam alguns grupos evangélicos e católicos conservadores. Basicamente, partindo do que algumas lideranças desse grupo difuso pregam, cada vez mais teríamos uma simbiose entre Estado e Igreja, a partir do que eles acreditam ser a interpretação bíblica que julgam adequada. Mas observando esse projeto, representado por lideranças que muitas vezes mais parecem mercadores da fé e que usam de sua voz, do medo e da culpa para propagar a imposição de seu credo, discursos de ódio e intolerância e até perseguições a grupos já marginalizados na nossa sociedade, como lgbts, defensores de ideias progressivas ou liberais nos costumes, ou de religião diversa da deles, é possível obsevar o uso da fé como meio de ascensão política e econômica pessoal, em nome de uma pretensa família cristã e de um moralismo exacerbado. Felizmente eles não representam a totalidade dos que se declaram cristãos, pois existem vários que compreendem bem a necessidade da adaptação dos ensinamentos religiosos aos desafios dos nossos dias e apresentam ideias em que o desenvolvimento da espiritualidade esteja acima de regras e dogmas ou mesmo ideias mercantis de religião e fé. Esses parecem estar mais alinhados às ideias do cristianismo primitivo de amor e respeito ao próximo e aos mais necessitados e à necessidade de garantia de um Estado laico e plural.

Já o futebol, talvez o principal ópio do povo frente à dureza da batalha pela sobrevivência, sempre conviveu com situações de vitórias e derrotas, provocações, discussões acaloradas sobre quem do time A ou B deveria ser o titular, que time tem o melhor centroavante ou o melhor goleiro, se foi ou não pênalti. Esse, infelizmente, evoluiu, ou melhor, involuiu primeiro para práticas de violência fortuita e barbárie primitiva como brigas em encontros casuais de torcedores de times rivais, depois para brigas marcadas previamente em redes sociais com paus, porretes, pedras, tiros e mortes, muitas vezes comemoradas quando de um torcedor adversário. O exemplo mais bem acabado da incivilidade coletiva atingindo o ápice.

A escalada de incivilidade que vivemos em nosso cenário político e religioso, como tiros contra manifestantes ou militantes políticos, os ataques a templos religiosos ou a adeptos de religiões de matriz afro-brasileira como a umbanda e o candomblé, ou ainda a grave execução da vereadora Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes no Rio de Janeiro, são alguns exemplos de como a escalada de violência que já atingiu o futebol também pode nos levar a uma situação insustentável se não recobrarmos o controle racional da situação, deixando de lado extremismos e fundamentalismos.

Procuro manter minha sanidade e acreditar, de forma otimista, que venceremos esse momento difícil da história e caminharemos passos adiante. Para isso, será necessário vencer essa fase de fla-flu político e religioso, discutir racionalmente, debater sem paixões exacerbadas, reaprender a ouvir, falar, argumentar, contra-argumentar, construir soluções políticas de consenso possível, fomentar o respeito e a tolerância. Pensar coletivamente num projeto de país menos desigual, mais justo, com mais participação popular na formulação de propostas de soluções e políticas públicas, afastando de pronto propostas autoritárias de volta a um passado recente ou remoto de práticas de perseguição política ou religiosa, censura, tortura, desrespeito às diferenças, intolerância e ausência de liberdades individuais. Se há uma crise na democracia, e há, é nosso dever lutar por mais democracia, nunca por menos.

Onde se impõe, se cala, ou se silencia, não há democracia!

 

Roberto Bezerra dos Santos

Professor Roberto/Betinho

 

 

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Por admin maio 11, 2018 23:02
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10 Comentários

  1. Edy maio 16, 03:19

    Parabéns prof. Trazer um artigo desse nível nos da uma injeção de vida para temas tão importantes pois o que vemos hoje é um grande impulso para mais atrocidades a serem cometidas por grupos que continuam a crescer rumo a intolerância religiosa

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  2. Tuco maio 16, 03:57

    Parabéns concordo plenamente…

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  3. Tico maio 16, 03:58

    Concordo plenamente

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  4. Cristiano maio 16, 05:01

    Betinho uma mente Brilhante!!!

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  5. Alê maio 16, 06:17

    Boa matéria, compartilho desse otimismo.
    Abraços

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  6. Bebeth maio 16, 10:58

    Excelente artigo. Muita lucidez e bom senso nas colocações. É de cidadãos como você que precisamos para nos representar.

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  7. Rona maio 16, 15:23

    É isso aí Betinho! Temos de ter a persistência de batalhar para melhorar esse ambiente insano no qual vivemos. Saber que jovens (alguns) flertam com pensamentos obscuros exige a prática do diálogo permanente e, na medida do impossível, esclarecedor. Parabéns pelo artigo!

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  8. Sandra ( Artes) maio 16, 15:48

    Roberto,
    Parabens pelo seu artigo.Voce disse tudo que gostariamos de dizer, de forma muito clara,e objetiva.

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  9. Joyce maio 17, 11:38

    Concordo plenamente. Somente com clareza,discernimento e justiça verdadeira alcançaremos nossos ideais de democracia. Me representou neste texto. Obrigada

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  10. Ernestao maio 18, 17:54

    E fato que com todo esse enredo , temos que ficar na educação, pois é um dos maiores caminho para esclarecer a classe oprimida , os justos pelos injustos os certos pelos errados, enfim as políticas públicas não são efetivas e tudo só um cala boca …

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